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Parar de consumir glúten pode melhorar a saúde?

Publicado por Felipe Affonso em

Essa é uma adaptação e tradução da matéria feita pelo Jornal de Saúde de Harvard, escrita pelo professor Robert Shmerling. Para consultar a matéria original, clique aqui.

Talvez eu esteja exagerando um pouco. Afinal, os modismos da saúde — especialmente os modismos relacionados à dieta — vêm e vão há décadas. Alguns são mais dignos que outros. Por exemplo, estou impressionado com a evidência que sustenta a dieta mediterrânea como uma opção saudável. Como cada um de nós é diferente, a “dieta ideal” pode não ser a mesma para cada pessoa. Mas o interesse e entusiasmo em torno do movimento de alimentos sem glúten nos últimos anos tem sido notável. Apenas alguns anos atrás, relativamente poucas pessoas tinham ouvido falar do glúten.

Se você está pensando em limitar seu consumo de glúten, você certamente não está sozinho. Mas a questão é: restringir o glúten que você come melhora sua saúde? E isso vai fazer você se sentir melhor? Essa é uma forma interessante de analisar essa situação.

O que é glúten?

O glúten é uma proteína encontrada em muitos grãos, incluindo trigo, cevada e centeio. É comum em alimentos como pão, massas, pizza e cereais. O glúten não fornece nutrientes essenciais. Pessoas com doença celíaca têm uma reação imunológica que é desencadeada pela ingestão de glúten. Eles desenvolvem inflamação e danos em seus tratos intestinais e outras partes do corpo quando comem alimentos que contenham glúten. Estimativas atuais sugerem que até 1% da população tem essa condição. Uma dieta sem glúten é necessária para eliminar a inflamação, bem como os sintomas. Mercearias e restaurantes oferecem agora opções sem glúten que rivalizam com alimentos convencionais em sabor e qualidade; há apenas alguns anos, era muito mais difícil manter uma dieta sem glúten.

Então, talvez não seja nenhuma surpresa que as pessoas adotem o mantra sem glúten, e, muitas vezes acabam apoiando essa causa. De acordo com uma pesquisa do Consumer Reports National Research Center, 63% dos americanos acreditam que uma dieta sem glúten pode melhorar sua saúde mental ou física. E até um terço dos norte-americanos estão o eliminando da sua dieta na esperança de melhorar a saúde ou prevenir doenças.

É realmente um mito?

Para chamar algo de mito, é importante definir o termo. Minha definição não científica de um mito da saúde requer a maioria dos seguintes itens:

  • Muitas pessoas acreditarem nisso.
  • Não existirem provas científicas convincentes para apoiar o mito.
  • Existir pelo menos alguma evidência científica contra isso.
  • Existir uma explicação pseudocientífica que pode ter apelo intuitivo (por exemplo, enemas para “desintoxicar” o cólon).
  • A ideia desafiar a compreensão padrão da biologia ou não possuir explicação biológica razoável. Um exemplo é uma dieta que ajuda a perder peso, apesar de aumentar sua ingestão calórica e reduzir o exercício.

Três outras características de muitos mitos de saúde populares incluem:

  • A possibilidade de que isso possa te prejudicar
  • Uma possibilidade de lucro (por aqueles que promovem o mito)
  • Apoio de celebridades

A partir dessa definição, a noção de que uma dieta sem glúten melhorará a saúde é um mito da saúde para a maioria das pessoas.

Quem deve evitar o glúten?

Há pelo menos alguma verdade na ideia de que o glúten pode ser prejudicial. Como mencionado, as pessoas com doença celíaca evitam doenças e mantêm uma saúde muito melhor se seguirem uma dieta sem glúten. Para eles, uma dieta sem glúten é nada menos que essencial.

E há pessoas descritas como “sensíveis ao glúten”. Seus testes para doença celíaca são negativos (normais) e ainda assim apresentam sintomas (incluindo inchaço, diarreia ou cólica abdominal) sempre que ingerem alimentos que contenham glúten. Uma causa é a alergia ao trigo, um distúrbio que pode ser diagnosticado pelo teste cutâneo. Mas para muitos, o diagnóstico permanece incerto. Alguns começaram a chamar isso de “hipersensibilidade ao glúten não-celíaca”, uma condição mal definida sobre a qual temos muito a aprender.

Evitar o glúten faz sentido para pessoas com doença celíaca, alergia ao trigo ou aqueles que não se sentem bem quando consomem glúten.

E quanto a todos os outros?

Não há evidências convincentes de que uma dieta sem glúten irá melhorar a saúde se você não tiver doença celíaca. O mesmo acontece se você puder comer glúten sem problemas. Claro, pesquisas futuras podem mudar isso. Nós podemos um dia aprender que pelo menos algumas pessoas, sem doença celíaca ou sintomas de doença intestinal, devem evitar o glúten.

Então, por que as dietas sem glúten são tão populares?

Eu suspeito que a popularidade esteja relacionada a uma combinação de fatores, incluindo:

  • Intuição: Parece ser uma boa ideia.
  • Lógica: Se o glúten é ruim para pessoas com doença celíaca, talvez seja ruim para mim.
  • Apoio de celebridades: Se eliminar o glúten é incentivado por alguém que eu admiro, talvez eu deva tentar.
  • Relatos: Testemunhos podem ser poderosos. Ouvir sobre alguém com sintomas incômodos que finalmente desapareceram depois de eliminar o glúten faz com que sejamos mais suscetíveis a essa ideia.
  • Marketing: Nunca subestime o poder da persuasão. Aqueles que vendem produtos sem glúten ou livros sobre dietas sem glúten podem ser convincentes, mesmo que haja pouca ciência para apoiá-lo.

Qual é o lado negativo?

Na verdade, praticamente qualquer intervenção na saúde vem com algum risco. Eliminar o glúten não é exceção. Antes de comprar a vida livre de glúten, o comprador deve ter cuidado! Pode não ajudar, pode causar problemas e provavelmente lhe custará mais.

Embora muitas pessoas na pesquisa Consumer Reports pensassem que as dietas sem glúten eram mais nutritivas e continham mais minerais e vitaminas do que os alimentos convencionais, o oposto geralmente é verdadeiro. Alimentos sem glúten são comumente menos enriquecidos com ácido fólico, ferro e outros nutrientes do que alimentos regulares contendo glúten. E alimentos sem glúten tendem a ter mais açúcar e gordura. Vários estudos descobriram uma tendência para ganho de peso e obesidade entre aqueles que seguem uma dieta livre de glúten (incluindo aqueles com doença celíaca).

Enquanto isso, os alimentos sem glúten tendem a ser mais caros que os alimentos convencionais. Isso me lembra a opção de alimentos orgânicos: as pessoas muitas vezes estão dispostas a pagar preços mais altos pelos alimentos que consideram mais saudáveis. O problema é que há pouca ou nenhuma prova de que esses alimentos são realmente melhores para você.

Agora que você já sabe o que é o glúten, o que você deve fazer?

Se você se sentir bem e não tiver sintomas digestivos, aproveite sua boa saúde! E pare de se preocupar tanto com o glúten.

Mas se você tiver sintomas que possam estar relacionados ao glúten, ou se você tiver sintomas significativos e inexplicáveis, converse com seu médico. Os sintomas da doença celíaca ou sensibilidade ao glúten incluem:

  • Diarreia
  • Dor abdominal
  • Perda de peso e falta de apetite
  • Inchaço ou sensação de plenitude
  • Erupção cutânea
  • Atraso de crescimento (em crianças)

Existem testes confiáveis ​​para diagnosticar a doença celíaca. Estes incluem exames de sangue que detectam certos anticorpos, testes genéticos e biópsias intestinais. Os resultados podem ajudá-lo a entender quais alimentos, se houver algum, deverão ser evitados. Você pode aprender que pode comer o que quiser. Ou, você pode aprender que é a lactose (o açúcar no leite), não o glúten, que está causando problemas. Ou, você pode vir a ter outra condição comum que não está relacionada ao glúten, como a doença de Crohn, uma úlcera ou doença do intestino irritável.

Conclusão

Estamos, sem dúvida, em um momento de maior conscientização sobre o glúten. Isso é uma coisa boa? É, se você tem doença celíaca. Eu acho que é um grande passo para as pessoas que realmente precisam evitar o glúten. Agora elas podem fazê-lo mais facilmente do que no passado, já que mais alimentos sem glúten estão disponíveis e os rótulos estão identificando mais claramente os alimentos com ou sem glúten. Mas os “perigos” do glúten provavelmente foram exagerados. Não seja influenciado por um atleta de elite ou uma estrela de cinema para restringir sua dieta quando não houver nenhuma razão médica para fazê-lo. Cabe a você e seu médico — não uma celebridade ou autor de livros — cuidar da sua saúde.


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